quinta-feira, 29 de abril de 2010

Explicação

Não há espaço para confusão, o meu peito sangra deitado em palavras mediocres. Entre pensamentos, arquejo e deixo um rio de ilusões esvaírem por entre a inéciar da espera, pelo meu corpo, gotículas de suor formam lágrimas retidas por olhos perdidos na solidão. Nada guardo dentro de mim, os sentimentos silenciosos brotam e se perdem na imensidão do vázio.
As boas palavras, em cada fala, soam para dentro da garganta, invertida, ferem os meus orgãos; e minha boca cala, quando não, balboceia paródias, de mau gosto, sobre sentimentos sublimes. Dessa forma, sou incompreendido, julgado e marcado pelo símbolo da indiferença. Tudo isso por que tenho uma forma singular de expressão. E para explicar essa forma, mesmo que seja de maneira abstrada, venho aqui dizer e desfazer qualquer confusão: pois eu sinto.
Sinto uma enorme distância da forma como nos comunicamos, não falo em palavras, porque amplio para todos os sentidos. Sinto um descompasso na forma como vemos as coisas. Vejo um enfretamento cotidiano e a morte das pequenas partículas de prazer. Vejo a morte do desejo e, dessa forma, mesmo perto, você parece distante de mim.
Vejo, sinto, percebo uma estrutura de vida, códigos de postura do qual eu não pertenço... Sinto minha alma solitária incompreendida pelo padrão pré-estabelecido em qualquer escala social. Com isso me torno anacoreta, misantropo e chato, não peço o contrário, mas, dessa vez, abro espaço para explicação. Por não entrar na roda da qual muito já se falou, fito o vázio dialogando com a solidão, porém não estando só nesse ponto, navego por todas circunstâncias sociais e vivo sem deslumbre para com aquilo que nunca foi meu. Estou de passagem e não espero compreensão.
Apesar disso, eu quero pequenas doses de felicidade, como se fosse um pouco de adoçante colocado no café, eu quero sorrir ao amanhecer e vivenciar um dia lindo ou um dia magnífico de esforços superados ou não. Eu quero, deixa-me ver, na verdade, ter uma visão positiva de tudo que possa vir. Não quero mais acordar com aquela cara amarrada de quem não quer levantar. Entretanto, para isso, preciso de compaixão (co-sentimento) “a mais alta capacidade de imaginação afetiva, a arte da telepatica das emoções” – o sentimento supremo.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Pulsão da morte

Como se fosse o último remédio, ele caminhava pela rua protegido pela escuridão. Caminhava com um aspescto obscuro; guardava lembranças conturbadas de uma noite que demorava a terminar. Olhava pro chão, sentia o ar denso das noites de verões chuvosos. Pensava mas tudo que queria era não pensar. Ele queria sumir, pois estava sendo violentado pela agúnstia. Seu corpo tremia de inquietação.
“Um queda sem retorno, uma queda para o alto...”
A pulsão da morte parecia que o dominava; entretanto, posso afirmar, tudo que ele possuía era vida contida nos contratos sociais. Ultimamente, com a morte do pai, o garoto havia adquirido responsabilidades sobre si; e talvez, em sua cabeça, sobre outros – a irmã mais nova, a cordata irmã mais velha e sua mãe. Esses tiravam a sua paciência dizendo como ele deveria comportar-se. Condutas éticas, que o feria, espessamente, permeavam aquele ambiente.O qual, naquela noite, desabara.
“Uma queda com um fim marcado, sem hora certa a chegar, uns passam a existir ao colocar os pés no chão. Quando não for mais passarei a ser...”
Ele já não era o de uma semana atrás. Passava agora a viver longe de um mundo de ilusão, com os pés no chão; e tão cedo, tão cedo... Logo, a rua escura, ao mesmo tempo em que lhe trazia medo, por causa dos assaltos ou qualquer coisa do tipo, lhe dava uma sensação estranha de força (o protegia). Naquele momento ele seria capaz de enfrentar qualquer coisa, sem medo de perder a vida.
“Eu acho que ser é inevitável e caímos para a morte, o fundo do poçó, um lugar adiante, o lugar com fim.”
Pensava que o enfrentamento seria sua escolha diante da inércia da vida:
“Ao evitar a inércia, continuo inerte na mesma, com o campo de movimento reduzido a uma queda...”
Na verdade, naqueles instantes de caminhada, ele só não era capaz de enfrentar a vida. Porque, naquela noite, nosso amigo havia descoberto algo que nunca imaginara, essa descoberta fez todo seu padrão ético-moral desmoronar: Ele soube também o porquê da morte e quem havia matado seu pai.
Continua...

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Uma queda sem retorno
Uma queda para o alto
Para o lado
Para algum lugar
Ao evitar a inércia
Continuo inerte na mesma
Com o campo de movimento reduzido a uma queda
Eu acho que ser é inevitável e caímos para a morte
O fundo do poço
Um lugar adiante
O lugar com fim
Onde já não somos mais - aonde está o erro, senão no movimento.
Alguns passam a existir quando deixamos de ser
Nossa mentalidade é resignificada a cada olhar – ficaremos em vida em lugar algum.
Uma queda com um fim marcado
Sem hora certa a chegar
Uns passam a existir ao colocar os pés no chão
Quando não for mais passarei a ser
E você? Sou um pouco do seu olhar.
Curiosamente, olhe em si sem exagerar, desvie o olhar.
Continue você... Quem será?:
Um vácuo, um espelho, um observador;
Um enlatado receptível a minha declaração.
A mim não importa quem sou,
Se já sou a não me importa.
E essa queda, que nóia!
Tranqüilizo a me angustiar.