sexta-feira, 2 de julho de 2010

Sonhos

Numa angustia cotidiana, por não ter o que fazer, eu via se aproximar uma pálida cara liberta.

Saído da prisão, o monstro se contorcia todo e descia mais alguns degraus. Ele se apresentava grosseiramente, ainda desacostumado com a luz do sol. Sua prisão ficava no compartimento mais alto do corpo, na morada da nossa alma.

Logo, na contramão dos meus sentimentos, com certa aflição, ciente dos poucos passos que faltavam para o nosso encontro, eu o encarava face a face; via-o despotado. E sem clara noção do que é liberdade, ele perguntava, com uma voz grave e arrastada: “aqui, o que eu posso fazer?”.

Existia em mim algo contraditório: curiosidade, compaixão e repulsa se mesclavam. Eu respondia que ele só não podia agredir outros. Ele sorria, mostrava seus dentes amarelos, os dentes amarelos da desilusão. Disse-me que o tamanho da agressão caberia em meus sonhos.

Não entendi! Mas me pus a correr...

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