domingo, 26 de junho de 2011

Amor,

Ele não toca por nada ou do nada.
Ele aflora e toca...
Silencia, suspira e lê.

Ele sente como se fosse pele,
a tua, o teu desejo...

Ele te consome,
 te mede em pêlo.
Ele não é assim,
ninguém sabe como é...

Se é um acaso, um caso
se tem ou não valor
Não se sabe
pois não é de amor nem de sofrer.

Ele não toca por nada
ou  vem do nada
O que se sente é o que é
Ele, de tudo do nada, se mostra
e se denomina prazer.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Sonhos

Numa angustia cotidiana, por não ter o que fazer, eu via se aproximar uma pálida cara liberta.

Saído da prisão, o monstro se contorcia todo e descia mais alguns degraus. Ele se apresentava grosseiramente, ainda desacostumado com a luz do sol. Sua prisão ficava no compartimento mais alto do corpo, na morada da nossa alma.

Logo, na contramão dos meus sentimentos, com certa aflição, ciente dos poucos passos que faltavam para o nosso encontro, eu o encarava face a face; via-o despotado. E sem clara noção do que é liberdade, ele perguntava, com uma voz grave e arrastada: “aqui, o que eu posso fazer?”.

Existia em mim algo contraditório: curiosidade, compaixão e repulsa se mesclavam. Eu respondia que ele só não podia agredir outros. Ele sorria, mostrava seus dentes amarelos, os dentes amarelos da desilusão. Disse-me que o tamanho da agressão caberia em meus sonhos.

Não entendi! Mas me pus a correr...

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Explicação

Não há espaço para confusão, o meu peito sangra deitado em palavras mediocres. Entre pensamentos, arquejo e deixo um rio de ilusões esvaírem por entre a inéciar da espera, pelo meu corpo, gotículas de suor formam lágrimas retidas por olhos perdidos na solidão. Nada guardo dentro de mim, os sentimentos silenciosos brotam e se perdem na imensidão do vázio.
As boas palavras, em cada fala, soam para dentro da garganta, invertida, ferem os meus orgãos; e minha boca cala, quando não, balboceia paródias, de mau gosto, sobre sentimentos sublimes. Dessa forma, sou incompreendido, julgado e marcado pelo símbolo da indiferença. Tudo isso por que tenho uma forma singular de expressão. E para explicar essa forma, mesmo que seja de maneira abstrada, venho aqui dizer e desfazer qualquer confusão: pois eu sinto.
Sinto uma enorme distância da forma como nos comunicamos, não falo em palavras, porque amplio para todos os sentidos. Sinto um descompasso na forma como vemos as coisas. Vejo um enfretamento cotidiano e a morte das pequenas partículas de prazer. Vejo a morte do desejo e, dessa forma, mesmo perto, você parece distante de mim.
Vejo, sinto, percebo uma estrutura de vida, códigos de postura do qual eu não pertenço... Sinto minha alma solitária incompreendida pelo padrão pré-estabelecido em qualquer escala social. Com isso me torno anacoreta, misantropo e chato, não peço o contrário, mas, dessa vez, abro espaço para explicação. Por não entrar na roda da qual muito já se falou, fito o vázio dialogando com a solidão, porém não estando só nesse ponto, navego por todas circunstâncias sociais e vivo sem deslumbre para com aquilo que nunca foi meu. Estou de passagem e não espero compreensão.
Apesar disso, eu quero pequenas doses de felicidade, como se fosse um pouco de adoçante colocado no café, eu quero sorrir ao amanhecer e vivenciar um dia lindo ou um dia magnífico de esforços superados ou não. Eu quero, deixa-me ver, na verdade, ter uma visão positiva de tudo que possa vir. Não quero mais acordar com aquela cara amarrada de quem não quer levantar. Entretanto, para isso, preciso de compaixão (co-sentimento) “a mais alta capacidade de imaginação afetiva, a arte da telepatica das emoções” – o sentimento supremo.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Pulsão da morte

Como se fosse o último remédio, ele caminhava pela rua protegido pela escuridão. Caminhava com um aspescto obscuro; guardava lembranças conturbadas de uma noite que demorava a terminar. Olhava pro chão, sentia o ar denso das noites de verões chuvosos. Pensava mas tudo que queria era não pensar. Ele queria sumir, pois estava sendo violentado pela agúnstia. Seu corpo tremia de inquietação.
“Um queda sem retorno, uma queda para o alto...”
A pulsão da morte parecia que o dominava; entretanto, posso afirmar, tudo que ele possuía era vida contida nos contratos sociais. Ultimamente, com a morte do pai, o garoto havia adquirido responsabilidades sobre si; e talvez, em sua cabeça, sobre outros – a irmã mais nova, a cordata irmã mais velha e sua mãe. Esses tiravam a sua paciência dizendo como ele deveria comportar-se. Condutas éticas, que o feria, espessamente, permeavam aquele ambiente.O qual, naquela noite, desabara.
“Uma queda com um fim marcado, sem hora certa a chegar, uns passam a existir ao colocar os pés no chão. Quando não for mais passarei a ser...”
Ele já não era o de uma semana atrás. Passava agora a viver longe de um mundo de ilusão, com os pés no chão; e tão cedo, tão cedo... Logo, a rua escura, ao mesmo tempo em que lhe trazia medo, por causa dos assaltos ou qualquer coisa do tipo, lhe dava uma sensação estranha de força (o protegia). Naquele momento ele seria capaz de enfrentar qualquer coisa, sem medo de perder a vida.
“Eu acho que ser é inevitável e caímos para a morte, o fundo do poçó, um lugar adiante, o lugar com fim.”
Pensava que o enfrentamento seria sua escolha diante da inércia da vida:
“Ao evitar a inércia, continuo inerte na mesma, com o campo de movimento reduzido a uma queda...”
Na verdade, naqueles instantes de caminhada, ele só não era capaz de enfrentar a vida. Porque, naquela noite, nosso amigo havia descoberto algo que nunca imaginara, essa descoberta fez todo seu padrão ético-moral desmoronar: Ele soube também o porquê da morte e quem havia matado seu pai.
Continua...

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Uma queda sem retorno
Uma queda para o alto
Para o lado
Para algum lugar
Ao evitar a inércia
Continuo inerte na mesma
Com o campo de movimento reduzido a uma queda
Eu acho que ser é inevitável e caímos para a morte
O fundo do poço
Um lugar adiante
O lugar com fim
Onde já não somos mais - aonde está o erro, senão no movimento.
Alguns passam a existir quando deixamos de ser
Nossa mentalidade é resignificada a cada olhar – ficaremos em vida em lugar algum.
Uma queda com um fim marcado
Sem hora certa a chegar
Uns passam a existir ao colocar os pés no chão
Quando não for mais passarei a ser
E você? Sou um pouco do seu olhar.
Curiosamente, olhe em si sem exagerar, desvie o olhar.
Continue você... Quem será?:
Um vácuo, um espelho, um observador;
Um enlatado receptível a minha declaração.
A mim não importa quem sou,
Se já sou a não me importa.
E essa queda, que nóia!
Tranqüilizo a me angustiar.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Um leve percurso

Quando já era tarde, fui... Caminhei em silêncio num silêncio adentro. Cada vez mais pra lugar algum, algum lugar chamado entendimento. Nesse percurso, o não saber passava a ser comum, já ouvia, no silêncio de pensamento, os borburinhos do caminhar. Os melódicos e compassados passos marcavam a caminhada. Era uma distração tranquila: ao meu redor, ao redor de tudo que eu olhava, marcas daqueles que por aqui passaram faziam-se presente. Apesar do silêncio e do aparente vazio, eu não estaria só: marcas objetivas de subjetividade impregnavam o meio. Um lugar onde uma coisa me remetia a outra se concretizava. O silêncio, cada vez mais tímido, me dizia por onde seguir. E dessa maneira, um pouco vacilante, eu prosseguia...
Comecei a perceber vozes de um passado recente, feixes de presente passavam a se compor. Um desenho fluído e forte aparecia como visão. Eu estaria vendo meu futuro ou tomei uma dose forte de imaginação? Eu não saberia, pois as coisas mudavam rapidamente de lugar. Uma dinâmica abstrata não me deixava ter uma certeza sólida. Entretanto, me restava um ponto comum: Sede, fome e alegria. Uma misteriosa alegria forjada na vontade de comer. Eu não comeria barro, eu não devoraria livros se eu não os pudesse digerir. Era dessa conclusão que vinha a alegria, da consciência daquilo que eu poderia digerir.
Por um momento, pensei ser senhor de si. Meus limites eram óbvios e comuns, minhas obervações eram vastas e solitárias. Eu tinha fome... E um delírio aponderava-se dos meus pensamentos. Passei a procurar o vázio de tudo e pensar que toda sintaxe era pura ilusão. Por que, eu, um sujeito simples precisa de pão e barro para sobreviver? Se já tenho alma, por que preciso de alguém ao meu lado para me dizer que tudo não foi imaginação? Nesta rua, sinuosas pedras formam edifícios inimagináveis. Tudo partia da imaginação e da consciência de saber quem sou. A velha busca do eu? Não, eu tenho sede. Eu sou essa pele polimorfa de sentidos a respirar oxigênio. Ao final do meu delírio, pude, então, encontrar algumas maçãs. E voltei à certeza de não ser dono de si... Se sou alma, sou também barro, e o resto é invenção...

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Caminho pelo não lugar

Qual será nosso caminho na vida? Seria aquele que sonhamos...? Por quantos lugares devemos passar para chegarmos ao ponto de partida, a largada dos nossos planos; seria no lugar ou momento em que planejamos ou quando iniciamos a execução do planejado?
Não sei exatamente; mas sei que é extenuante a caminhada diária, meu corpo ainda quente, um pouco cansado, com uma postura incorreta, senta à frente do computador. Prefiro não citar as datas, apenas nada além do meu itinerário.
Trabalho – Faculdade – Casa.
Quantos caminhos eu traço diariamente não sei, mas de algum modo eu sempre consigo quebrar a rotina.
Hoje, ao sair do trabalho fui esperar o ônibus fora do terminal, com a intenção de evitar as longas filas e o aperto de quem já não precisa passar à roleta. Ao entrar, uma disputa fugaz e silenciosa se revela para ver quem fica sentado. Na parte da frente, as pessoas empurram-se e acotovelam-se por um espaço para por os pés. Os corpos roçam um no outro ao balançar do veículo ou na passagem de passageiros que por alguns momentos ficam ali no lugar que antes era só de caminhantes. A linda paisagem do por do sol alivia o percurso cansativo. Quando há janela, uma válvula de escape instala-se no corpo, com isso o espaço e tempo se diluem e eu passo a não estar. E eis que chega minha parada. È, mas nem sempre é assim.
“Porra! Motorista tu não está levando boi não.”. É uma das coisas que se corre o risco de escutar. Vendedores ambulantes, pessoas pedindo esmola: “gente eu podia tá roubando, matando, mas tou pedindo.”, uma ameaça implícita para transeuntes do transporte coletivo. Outras vezes, meu transporte, pára e já não consegue passar por entre os prédios. A artéria da cidade fica entupida. E quando passa o faz tão lentamente que é como se não saíssemos do lugar. Motos, bicicletas e pedestre nos ultrapassam. Todos pelas calçadas. Que pena não cabermos lá.
Apesar de sermos velozes há outro veloz na nossa frente e outro que não nos deixa passar. Não há espaço, não há mudança, e sim o calor que aumenta a cada momento que ficamos ser ar. “A culpa é da prefeitura.”, se ouve. “não, é do motorista, pois ele que dirige.”, se responde. Piadas são feitas pela situação, uma fila de carros – ônibus – dentro dos terminais. Desço, preciso respirar, vou caminhar um pouco por entre carbono, até chegar ao meu destino. Melhor que ficar em lugar nenhum, no veículo rápido que não sai do lugar. Já pensei em comprar uma bicicleta, mas o trânsito é perigoso. E um dia ele volta a rodar. Ou não.